segunda-feira, 25 de agosto de 2014

VEJO COM OUTROS OLHOS


“Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou’”. 
Esse texto está no primeiro capítulo da Bíblia, na descrição das origens da humanidade e, numa interpretação fundamentalista, trata-se de uma verdade histórica, independentemente do fato de que em todas as culturas existam mitos que relatam a criação. Verdade histórica, ou não, fato é o que cremos, como cristãos: o mundo foi criado por Deus. O homem não só foi criado por Ele, mas criado à Sua imagem e semelhança.
Cada dia mais, vemos o poder do homem. Esse poder que vem de Deus, da inteligência, do raciocínio, da criação de tantas coisas belas em favor da humanidade e, infelizmente, de coisas feias também, que destroem, que matam.

Mas vamos falar de coisas belas. A medicina e o progresso da ciência. Os medicamentos, os aparelhos sofisticados para detectar doenças, as vacinas contras as mais diferentes endemias, os aparelhos que ajudam paraplégicos a andar, desde os mais elementares, a cadeira de rodas, o andador, como aquele  mais sofisticado apresentado na abertura da copa do mundo.

Esses dias, vi uma reportagem que me encheu os olhos.  Uma universidade do Nordeste criou um sensor que ajuda cegos a detectar objetos à sua frente, possibilitando-lhes uma caminhada sem os perigos comuns das ruas, como calçadas nada cidadãs, degraus, orelhões de telefone etc. Localiza-se um sensor na aba de um boné e um em cada extremidade da bengala.  Trata-se de uma tecnologia baseada no sensor dos morcegos. Esses animais se orientam no escuro por um mecanismo chamado ecolocalização ou sonar dos morcegos. Segundo pesquisa da EMBRAPA, esses animais emitem gritos, que consistem em ondas de altíssima frequência, inaudíveis pelo homem, emitidos pela boca ou pelas narinas. Esses impulsos de ultrassom, ao atingirem um objeto, são refletidos em forma de ecos e captados pelos ouvidos. Com esse sonar, os morcegos conseguem identificar, quando voando, a natureza do ambiente que os circunda, bem como a forma e a dimensão do objeto. Olhando, a bengala é uma coisa simples, mas é, sem dúvida, uma das maravilhas criadas pela inteligência do homem, a serviço do homem. Melhor ainda, uma tecnologia barata, que pode ajudar inúmeras pessoas.
Por que estou me lembrando disso, hoje?  Porque me submeti a uma cirurgia de catarata num dos olhos, e catarata e astigmatismo no outro, com substituição do cristalino por uma lente intraocular multifocal. Já no dia seguinte, observei a diferença na visão. Penso que o mais incrédulo dos homens dá Graças quando sente tal mudança na forma de ver o mundo. Uma clareza que espelha a grandeza de Deus e sua criação. A minha atitude não foi diferente no dia seguinte à primeira cirurgia: Levantei os braços aos céus e agradeci comovida a minha clara visão, sem óculos e sem lentes de contato. Agradeci a Deus a perícia, a gentileza e o cuidado, com que brindou o Dr. Sebastião Leonardo, o oftalmologista, um vocacionado para a profissão. Eu, que gosto tanto de ler e escrever, mesmo usando óculos ou lentes de contato no grau correto, estava com dificuldade para enxergar.  Não é para louvar a Deus?
Entretanto, não posso me furtar a mais uma reflexão. A tecnologia das lentes, infelizmente, ainda não abrange a massa de pessoas. O preço é altíssimo. Somos todos iguais, mas como disse Orwell, uns são sempre mais iguais. Essas maravilhas criadas pelo homem, criado à Imagem de Deus e, portanto, poderoso, são acessíveis  apenas a uns, os mais iguais como eu.  Ainda temos um Brasil dividido em dois países. No dizer de Suassuna, recentemente falecido: “É muito difícil você vencer a injustiça secular que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos”.
Como Deus é poderoso, o homem, criado à sua imagem e semelhança, também é poderoso. Então, podemos ter esperança de um dia, termos um, apenas um, grande e belo país.

Maria Francisca – agosto de  2014.

 

 

 

 

 

domingo, 17 de agosto de 2014

SEM MEDO



São cinco horas de um dia de inverno.
Os dedos já no teclado do computador, abandono rapidamente o trabalho mal iniciado, resolvo ver o nascer do dia e fico de tocaia na varanda. Está frio. Aquele ventinho do mar me provoca um leve arrepio, mas dali não arredo pé. Ainda está escuro, mas os raios de fogo na barra do céu anunciam a chegada da manhã.

Do décimo andar, olho por cima dos edifícios.  As luzes de um navio ao longe parecem tremular. Dirijo o olhar para a rua e vejo o mar, ondulando, ondulando, e aquele barulhinho de ondas rasas, contínuo me dá vontade de descer, ir lá e molhar os pés naquela água gelada. Apesar do desejo, fui ficando por ali, em doce devaneio, atenta ao fluxo e refluxo das vagas.

Um carro passou veloz, o ruído feriu meus ouvidos e tirou-me a doce contemplação. Por que não vou caminhar um pouco, se desde as quatro estou de pé? Quantas vezes não saí a caminhar, ou mesmo a correr, entre quatro e cinco horas da manhã?

Não me é permitido. A vontade turva, esmorece, e o medo fala mais alto, quando me lembro dos assaltos e dos outros tipos de violência dessas nossas cidades, pequenas ou grandes. Nem as vilas do interior, tampouco as fazendas ou sítios são poupados. E, ali mesmo, inicio um meditar solitário, num questionamento vivo e contínuo: Que estamos fazendo com nosso mundo?
O que gera violência? Pobreza? Muitos dizem que sim. Pode ser. Vemos mendigos por onde andamos. Moradores de rua, à beira de praias, sob pontes e viadutos, onde vivem em condições sub-humanas. Sujos, comendo restos catados no lixo, muitas vezes, em total promiscuidade.  É possível aguentar uma vida assim? Procuram refúgio nas drogas. Ou vão para a rua justamente porque são usuários dessa horrível praga moderna e perdem tudo, a dignidade, inclusive. Ninguém sabe o que começou primeiro.

Padre Xavier afirma que ninguém nasce bandido. As pessoas se tornam assim, segundo ele, a partir de um contexto de desamor, estrutura familiar, falta de apoio e, sobretudo, abandono nos primeiros anos de vida, da concepção à adolescência.

A pobreza pode produzir a violência, sim, mas, muitas vezes, porque a vida está vazia, sem perspectivas, sem rumo. A indigência não é somente de bens materiais. É de tudo.
Nossos meios de comunicação nada mais fazem do que incitar gastos, oferecendo todos os tipos de produtos. Empréstimos variados, sem exigência de cadastro, até para quem está denunciado no SPC, como alardeiam certas propagandas televisivas. O locutor é bonito, sorridente, encanta o público e vende a imagem de poder. É tudo muito rápido. Corra buscar seu empréstimo, dizem, subliminarmente. Pensar não se pode. Não dá tempo.

Há poucos dias, os jornais estamparam matéria em que a mãe chorava porque o filho, adolescente, fora apreendido, por assalto à mão armada. Ele disse que queria comprar um tênis. Ela, uma faxineira, havia prometido comprar o tal tênis do desejo, que custava cerca de 400 reais. Uma faxineira. Nada se disse sobre a escola desse adolescente, sobre a família, sobre esse desejo de ter aquele tênis caro, nada. Só que ele queria o tênis. Dessa forma, parece lícito roubar, simplesmente para suprir um desejo. Não importa se o bem que se pretende obter é necessário ou supérfluo. Importa ter, ter.

Diz Gilberto Dimenstein que “[...] a educação é o grande movimento abolicionista contemporâneo. É ela que garante a autonomia das pessoas, não existe forma mais grave de escravidão que a da ignorância [...]. E isso forma um círculo vicioso. Não tem boa educação, não vai ter um bom emprego, não vai conseguir dar uma boa educação para os filhos e não consegue pressionar mais pela educação”. E fala mais: “O grande papel da educação é gerar seres autônomos. Não é gerar indivíduos que saibam matemática, química e física. É gerar pessoas capazes de saber o que elas querem fazer de sua vida.

Isso é o que se chama consciência. Consciência da própria força. Consciência de que o mundo não vai acabar porque não se tem um tênis da moda. Consciência para optar entre o ser e o ter. Ou só ter o que é necessário. Consciência de que deve exigir do Poder Público o que lhe é de direito. Mais educação para todos, mais cuidado com a saúde, com os idosos, com as crianças, com o trânsito, com as ruas, com a limpeza e tudo o mais que é de responsabilidade do Governo, e ele não cumpre. Consciência para cuidar do espaço em que se vive e que é de todos e para todos.

Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra, diz o seguinte: “É fácil formar um homem que se subordina cegamente, sem questionar, a um mestre ou líder. Por outro lado, libertá-lo, para que aprenda a ser mestre de si mesmo, é uma empreitada muito mais difícil.”

Não sei se tenho razão. Penso que, se todas as nossas crianças tivessem escola adequada, educação, com certeza, nosso mundo não seria este. Ensinar a pensar é, realmente, o maior desafio de nossas escolas, para que as crianças saibam escolher a vida que desejam levar, o caminho que desejam seguir. Assim, não correriam o risco de ser levadas por mãos inescrupulosas.

Esse é apenas um pensamento de quem não conhece muita coisa, apenas observa o que ocorre ao seu redor e o que dizem os especialistas. Com efeito, diz o Livro da Sabedoria: “Os pensamentos dos mortais são tímidos e suas reflexões incertas, porque o corpo corruptível torna pesada a alma e a tenda de argila oprime a mente que pensa.”

Por fim, espero um mundo, sem medo, onde eu possa sair de madrugada, molhar os pés no mar gelado, apreciar as ondas em contínuo fluxo e refluxo, sentir as gotículas salgadas saltando no meu corpo ou maravilhar-me com o sol brotando do mar, com toda majestade. Utopia?  Pode ser. Se esse pensamento for inútil, vale a lembrança de Galeano para quem a utopia na minha vida serve para que eu não deixe de caminhar.
 
Maria Francisca  -  agosto de 2014.

 

sábado, 9 de agosto de 2014

A vingança de Mike


Escuto, leio e vejo muitas histórias sobre cachorros, principalmente no que se refere à fidelidade. Esses dias, por exemplo, “A Gazeta” noticiou há algum tempo  fatos interessantes. A cadela Filhinha, “Num belo exemplo de fidelidade e amor, seguiu seu dono até o Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Vitória, depois que ele foi preso por furto”. Segundo a notícia, a cadela acompanhou o carro da polícia por cinco quilômetros e ficou sentada, esperando, por 12 horas, na porta da delegacia. Outro caso, também noticiado pela imprensa, foi de Princesa. Ela teria ficado uma semana na porta de um hospital, a esperar por seu dono, que falecera, vítima de atropelamento. Em ambos os casos, as cadelas conseguiram novo dono, por adoção. Ainda bem.
O caso de Mike, entretanto, é singular.

Mike é um cachorrinho preto, pequenininho, muito paparicado por todos na casa onde mora. Marina, a dona, casou-se, mudou-se, mas, todos os dias, vinha à casa da mãe visitar Mike. E essa visita durava um tempão, porque Marina aproveitava para passearem juntos pelo calçadão da Praia da Costa, brincavam, corriam pra lá e pra cá e, no retorno, Mike ganhava sua bela ração, com todo o cuidado de uma dona carinhosa.

Marina ia para o trabalho, despedia-se de Mike, como se despede de uma criança. Ele ficava deitadinho no seu canto, cachorrinho educado que era, não incomodava, não sujava nada, nem latia sequer. Todos na casa gostavam muito de Mike.
Quando Marina estava muito atarefada e não podia sair a passear, era um tormento na casa. Mike, inquieto, começava a andar de um lado para outro, latindo, e, quando ninguém lhe dava atenção, deitava-se num canto e começava a ganir, numa tristeza de fazer dó.  Sua arma não falhava: alguém tinha que atendê-lo, fazendo as vezes de Marina. Isso sempre sobrava para o Marcos, o pai da dona do esperto cãozinho.

Certo dia, Marina, grávida, prestes a ter o filho, deixou de visitar o cachorrinho. Marta, irmã de Marina, implicada que estava com a atenção que davam para aquela, segundo ela, insignificante figura, chegou a casa e disse, bem firme, olhando nos olhos de Mike. Olhe, seu Mike: Vai nascer um bebê. Agora, você não vai mais ser o rei desta casa. Caiu do trono! He, he, he, he!  Todos vão se preocupar com Vitor, você não tem mais vez...

Mike ficou caladinho, deitou-se num canto e ficou ali a ganir, como se chorasse. Passou-se um dia e nada de Marina visitar Mike, passou-se outro e nada. Chegou a notícia do nascimento do Vitor. Todos falavam naquela criança, todos alegres, uma festa, um reboliço. Ninguém prestava atenção no Mike que vigiava a porta sem cessar. Qualquer movimento, ele levantava as orelhas, para, em seguida, abaixar o facho, como diria minha mãe.  E voltava para o canto.
Até que um dia, Mike acordou cedo e resolveu se vingar do seu ostracismo. Deve ter pensado, se é que cachorro pensa: Vamos ver se não vão me notar. Saiu correndo para a varanda que estava cheia de lindas e floridas bromélias do dono da casa e ali fez a festa. Subiu nos vasos de flores, arrancou-as uma por uma, saiu comendo o que sentiu que podia comer, derrubou os demais vasos, pisou em tudo, urinou no chão e voltou para dentro de casa, urinando em tudo que via e sentia, para desespero da família.

Não sei como a história vai acabar, porque, mesmo depois que passaram a dar-lhe mais atenção, Mike não se conforma com a perda do trono e continua a fazer estripulias pela casa.

Penso que deve estar esperando Marina chegar e dizer a ele que, mesmo com o nascimento do Vitor, ele continua muito amado. Será isso?
Pode ser, também, que Francisco de Assis, o santo protetor dos animais, segrede uns conselhos em seus ouvidos durante o sono e a paz volte a reinar na vida de Mike.

A ver.
Maria Francisca – agosto/2014.
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