sábado, 15 de novembro de 2014

ACENDA UMA VELA


De vez em quando, revejo textos, crônicas ou poemas preferidos. Desta vez, coube a Jorge de Lima fazer a minha alegria. Tirei da estante Poesia Completa e, sem surpresa, vi que estava marcada a página do soneto O acendedor de lampiões, meu preferido. Reli e fiquei pensando na primeira estrofe (Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Este mesmo que vem infatigavelmente, Parodiar o sol e associar-se à lua Quando a sombra da noite enegrece o poente). Energia elétrica nem pensar. As ruas, escuras, dependiam desse homem, que caminhava, caminhava e, infatigavelmente, iluminava as cidades.
O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, também fala do acendedor de lampiões. Só que seu planeta era tão pequeno que ele, mal acendia, tinha que apagar depressa a luz, porque já era dia. E nem podia dormir. Limitava-se a acender, apagar, e repetir, incansavelmente Bom dia, Boa noite, cumprindo o regulamento que não mudava nunca, apesar de o planeta ter mudado e começado a girar mais depressa. Era fiel ao regulamento. O Pequeno Príncipe, depois de fazer perguntas e mais perguntas, sugerir atitudes ao acendedor, concluiu: Esse aí seria desprezado por aqueles outros, pelo rei, pelo vaidoso, pelo beberrão, pelo empresário. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez seja porque não se preocupe apenas consigo mesmo.
A minha cidade natal tinha uma usina hidrelétrica, moderna para aquela época, naquele fim de mundo, mas com sistema manual. Aí, precisava do acendedor de lâmpadas. Chamava-se Manoel e tinha o apelido de Manoel da Luz, porque ia de rua em rua, com um grande bastão, na ponta um interruptor, acendendo as lâmpadas da Cidade. Mal insinuadas as sombras, lá vinha o Manoel da Luz, equilibrando-se em sua bicicleta Um dos nossos deleites era vê-lo, com toda perícia, sem descer da bicicleta, cutucar o poste e, como seu bastão mágico, fazer brotar bela e longa claridade, como a luz da lua.
Jorge de Lima diz, na penúltima estrofe do soneto: Triste ironia atroz que o senso humano irrita: Ele que doira a noite e ilumina a cidade, Talvez não tenha luz na choupana em que habita. Talvez, mas concluo, com o Pequeno Príncipe, que esse acendedor de lâmpadas também não pensava em si mesmo, cumpria seu dever de iluminar a cidade, com chuva ou sol. Por isso era tão querido pela população.
Em Mateus 5, 14-16 está escrito: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus”.
Não seriam esses acendedores um símbolo do cristão de que fala Mateus? Com seu trabalho incansável traziam alegria, porque traziam luz. E não pensavam em si, mas na tarefa que deveriam realizar, com cansaço ou com chuva, lá estavam eles, produzindo a magia de afastar as trevas.  Aqui, vale a simbologia da frase que li faz tempo: Não grite contra a escuridão, acenda uma velha.  E nós nem precisávamos gritar, tampouco precisávamos de velas. Tínhamos nossos vagalumes humanos, nossos mágicos da luz que nos impulsionavam à alegria.
Fico pensando nisso tudo e questiono a mim mesma, onde colocar uma vela, após essa avalanche de denúncias mal ou bem formuladas, esclarecidas ou não, verdadeiras ou não, e após uma eleição, em que se viu tanto ódio? Alguém verá? Terá força? Temos, hoje, acendedores de lampiões?

Maria Francisca – outubro de 2014.
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